Médico pode trocar de nome? De 'Dr. Djosci' a 'Dr. Henrique'
Atualizado: 26 de set.

Antes do "Dr.", antes do "Henrique", eu era um moleque no interior do Maranhão chamado... Djosci.
E aí, na virada pr'os 30, agora residente em Medicina de Família e Comunidade e assumindo no SUS o posto de novo médico da UBS Vila Íris em Gurupi/TO – troquei de nome.
Até hoje me perguntam o porquê.
É que os meus pacientes não conseguiam se lembrar do meu nome. Eu era o "Dr. Fortão", o "Dr. Novinho" ou (o meu preferido) "aquele-Dr.-que-olha-a-gente-no-olho". Mas o "Dr. Djosci", definitivamente, não pegou.
Mesmo assim, ele ficou.
Por que "Djosci"?
Porque meu pai também era um Djosci. Eu era o Júnior.
Os olhares tortos, as risadas, as soletrações ao telefone, as pronúncias "criativas" – nada disso conseguiu apagar o "Djosci" de mim.
Eu ainda precisava de um nome que os pacientes do SUS pudessem falar sem a língua dar um nó. Mas não podia ser qualquer nome.
Teria de ser "alguma-coisa Djosci", como um sobrenome perdido do Egito antigo.
("Djosci" tem mesmo origem egípcia: é uma adaptação de "Djoser", o nome do faraó que construiu a primeira pirâmide.)
O meu "Djosci" nunca esteve em questão.
Um bom Henrique
Foi num dia de visita domiciliar – com a equipe que esperava na calçada enquanto a paciente, uma sempre sorridente senhorinha, procurava, numa aflição atipicamente não sorridente, as chaves de casa – que eu olhei meu reflexo na porta de vidro da casa dela e pensei, comigo mesmo: "eu daria um bom Henrique."
Bem assim. Como quem olha pro céu e diz, com convicção: "tá com cara de que vai chover" – e depois não chove, ele não se lembra do que disse e a vida segue.
O "Henrique" foi embora tal qual veio: como um pensamento líquido, daqueles que costumam se encaixar entre um "será que tranquei a porta de casa?" e um "preciso me matricular no pilates".
Mas o desejo de mudar permaneceu.
O espelho
Martelo batido: vou mudar. Comunico mamãe e irmãs. Espero choque. Recebo um grande e coletivo: "Duvido que tu tem coragem."
Ah, é? Pois vão ver só.
Me olho no espelho.
"Henrique é bom. É bonito. Eu sou bonito. Espera aí – eu sou bonito?"
Concluo que não sou; logo, não mereço.
Tento algo mais discreto. Vejamos... "Caio". Caio Blat, Caio Castro: bonitos-mas-nem-tanto. Espelho: confere. Mudo o nome para "Caio Djosci" no Instagram e vou dormir.
Acordo antes do despertador. Confiro se troquei mesmo. Troquei, tá lá: "Caio Djosci". Questiono a minha sanidade.
"Quantas pessoas já devem ter visto isso?" Sinto medo da resposta.
Analiso. (É o que eu faço nessas horas – e nas outras também.)
"'Caio Djosci'. Eu vivo caindo mesmo. Podia mudar pra 'Levanto Djosci'."
Checo pela última vez. "'Escorrego Djosci'." Riso de canto de boca por microssegundo.
Uma vez Djosci, sempre Djosci – na saúde e na doença... "Que merda, bicho." Reverto. Volto a dormir.
Eu não sou cachorro, não
Vou atrás de um nome mais pé-no-chão. Penso em "Dante" e "Apolo": ambos reprovados por unanimidade pelos membros da panelinha da Medicina – e a Kamilla me pergunta se existe alguma razão para eu só escolher nome de cachorro.
Volto ao "Henrique". "Por que não?", pergunto ao espelho, que se mantém calado, como sempre. "É chique demais", eu mesmo respondo. "Eu sou meio brutamontes. Meio Shrek. Não orna."
Acordo convencido de que preciso de um nome de "veterano", daqueles que quem ouve pensa: "esse tem bagagem." (Eu não sabia, mas vivia os últimos dias da minha existência em que ser lido como "o novinho" ainda poderia soar algo pejorativo.)
O que eu queria mesmo era conquistar o respeito de cada um dos rostos que, como médico responsável pela saúde de uma "vizinhança" composta por mais de três mil gurupienses, eu vinha conhecendo todos os dias.
Especialmente, por alguma razão, o respeito das senhorinhas. 👵🏻
O veterano
Eis que vem, como um estalo, "Afonso".
Me soa... adequado. Como o nome de alguém que já era alguém muito antes de você – ou seus pais – nascerem.
Tento imaginar bebês-Afonso. Acho difícil. "Se existirem, é provável que já nasçam portando belos bigodes vitorianos e meia dúzia de cabelos brancos honorários. Esse nome tem rugas." Me empolgo.
Sinto um trem esquisito. Um déjà vu. Da noite anterior, inclusive. Racionalizo. "Se o Dr. Afonso não nascer dentro desta janela de empolgação, logo entrará em sofrimento fetal, e a causa será a profunda vergonha que hei de sentir pelo simples fato de um dia eu ter cogitado essa ideia" – concluo, com a precisão de quem já adestrou a própria tendência à catastrofização e agora a instrumentaliza como um catalisador de decisões potencialmente-eternamente adiáveis.
Afonsinha
Hora do juízo final de "Afonso". Critérios?
Critério – no singular.
"'...so, ...ci'. Gruda. Perfeito."
Pronto. Tá decidido.
Encomendo imediatamente um crachá novo e – com a prioridade máxima fora do caminho (!) – comunico a decisão à panela da medicina.
Sessão de intervenção extraoficial via WhatsApp. Hugo pede a palavra; ele quer exercer o seu poder de veto. Apresenta um (forte) argumento: "Se tu mudar teu nome pra Afonso, eu só vou te chamar de 'Afonsinha'. A escolha é tua."
E era mesmo.
Decido-me por "Henrique Djosci".

Na manhã seguinte, antes que eu possa mudar de ideia, vou ao cartório e entrego a papelada. Saio uma semana depois com um único papel na mão: minha nova certidão de nascimento.
Henrique Djosci Coêlho de Sá. Renascido... aos 30.
Na saída do cartório, meu reflexo – sempre ele – me dá um "oi" na porta de vidro do cartório. "Você estava certo", respondo, comigo. "Dei um bom Henrique mesmo."
Meus muitos nomes
O "Djosci" do meu pai vinha com "Coêlho de Sá"-e-só, ao passo que mamãe contribuiu com o "Júnior" ao final do meu nome de berço.
Quando virei "Henrique", o "Júnior" – que existia para separar o filho do pai, ambos com o mesmíssimo nome – deixou de ser necessário.
Não na boca de mamãe, naturalmente.
Hoje eu tenho nomes diferentes a depender do círculo social: "Henrique" para quem chegou depois dos 30 (o "Dr." fica, logicamente, a gosto do freguês); "Djosci" para quem já estava antes; "Júnior" para o núcleo que já se referia a mim como gente quando eu ainda era um punhado de células; "amor" para o meu namorado, Welton; e "meu filho", que mamãe, Dona Orleane agora compartilha com as minhas duas segundas-mães de Gurupi: Dona Iara – a mulher valente do coração mole que cuida de mim nesta cidade há seis anos – e Mygod Pagani Miranda – uma das personalidades mais amáveis e adoravelmente fora-da-casinha que eu já tive o prazer de conhecer.
Você pode ser...?
A inquietação, o questionamento e uma voz interna que nunca, nunca se cala – tudo isso sobreviveu ao nome novo.
E o "tudo isso" também tinha um nome: autismo nível 1 de suporte. Mascarado desde criança, diagnosticado aos 31.
Se você se reconheceu neste relato, você pode ser autista.
Ou não.
A autoidentificação constitui o primeiro passo na jornada de muitos adultos no espectro rumo ao diagnóstico tardio, e o seu papel não deve, sob hipótese alguma, ser menosprezado. Mas também é verdade que a autoidentificação, por si só, não basta para o diagnóstico correto.
Um mesmo sintoma pode ser mil coisas, e cada coisa pede um caminho diferente.
Nem sempre é autismo. Por vezes é; na maior parte delas, não.
O que eu faço é ajudar adultos que já se viram na descrição do espectro a descobrir o caminho correto. Independentemente do resultado.
Confira a crônica em uma versão condensada para carrossel do Instagram – mas com alguns easter eggs, ilustrações e aquele quê de layout de revista dos anos 2000 – abaixo (e aproveita para me seguir, oras!):



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