Cher, hiperfoco e interesses especiais no autismo: o que tudo isso tem a ver?
Atualizado: 22 de set.
28 de outubro de 2007 foi o dia em que eu me tornei fã da Cher.
Era um domingo típico. Passei praticamente o dia inteiro em frente ao computador fazendo aquilo que eu sempre fazia: espiralar por um rabbit hole de links e janelas abertas simultaneamente.
Foi assim que caí de paraquedas em um artigo da Wikipédia chamado "Cher".
Eu tinha 13 anos.
Foi em um monitor de tubo branco-que-com-o-tempo-vira-amarelo que vi aquela mulher pela primeira vez. A imagem era esta:

Cher é, muito provavelmente, uma das mulheres mais fotografadas da história, mas aquela imagem em específico era, estatisticamente falando, uma foto de percentil 3: em quase qualquer outra ocasião em que uma câmera lhe fora apontada, ela saíra melhor.
Ainda assim, aquela imagem me intrigou.
Tratava-se de uma mulher inegavelmente... estranha. Esquisita, até. Como eu.
Parecia não ter idade nenhuma e todas as idades ao mesmo tempo.
Parecia um ser de outro planeta.
Parecia também uma tia legal, daquelas com quem você poderia passar horas conversando sobre qualquer assunto.
E parecia uma mãe. Não a minha mãe, especificamente, mas algo próximo do conceito de "mãe-natureza": uma espécie de entidade que sempre esteve ali e que sempre estará. Como o sol.
Sol. Céu. Ar. Cher. Todos eles mononímicos, todos eles monossílabos, todos eles... etéreos?

"Cher" me soava como um conceito enorme e complexo demais para ser compreendido em uma tarde de domingo.
Talvez precisasse de duas tardes. Ou de duas décadas.
Não deu pra resistir.
Em 2010, inventei e comecei a espalhar pela internet o apelido de "Deusa do Pop". O motivo: eu simplesmente não conseguia conviver com o fato de que Madonna era a "Rainha do Pop" e Cher – a "minha" Cher – não tinha título nenhum. "Goddess of Pop" foi parar nas palavras cruzadas do New York Times e nas páginas da Time, Billboard e Rolling Stone. Hoje, até a própria equipe dela usa.
Em 11 de março de 2010, fiz minha primeira edição assinada no artigo da Cher na Wikipédia em inglês. Em 11 de março de 2025 – quinze anos depois, no mesmo dia – ele se tornou artigo destacado após meses de revisão por pares.
Sim, eu (re)escrevi a Bíblia da Cher na internet por completo. Cada palavra ali é minha ou passou pelo meu crivo.
Nesse meio-tempo, criei canal, site e até plataforma de streaming sobre Cher: mais de 400 mil inscritos no YouTube, um fã-site (cherfanclub.com) que conquistou o topo do Google (desbancando o oficialíssimo – e hoje fora do ar – cher.com) e milhares de assinantes no CherFlix (não, você não leu errado).

Muita gente chamaria tudo isso de hiperfoco... Quase.
Cher é um dos meus interesses especiais.
Interesse especial é aquele assunto que atravessa décadas, que organiza a sua visão de mundo, que nunca perde o fascínio.
Já o famoso (e frequentemente descontextualizado) hiperfoco é um estado: horas de imersão total em que o tempo desaparece e o mundo em volta desliga.
É parente do "flow", mas sem o botão de sair.
O interesse é o mapa; o hiperfoco é pegar a estrada com o indicador de combustível quebrado.
No autismo, os dois costumam andar juntos. É por isso que um hobby autista raramente se restringe a uma atividade de lazer. A gente tende a transformar o hobby em obra.
Me descobri autista aos 31.
Hoje, como médico que investiga e diagnostica autismo em adultos, reconheço nos meus pacientes o que carrego na pele... Nesse caso, literalmente.




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