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Cher, hiperfoco e interesses especiais no autismo: o que tudo isso tem a ver?

21 de set.
3 min de leitura

Atualizado: 22 de set.

28 de outubro de 2007 foi o dia em que eu me tornei fã da Cher.


Era um domingo típico. Passei praticamente o dia inteiro em frente ao computador fazendo aquilo que eu sempre fazia: espiralar por um rabbit hole de links e janelas abertas simultaneamente.


Foi assim que caí de paraquedas em um artigo da Wikipédia chamado "Cher".


Eu tinha 13 anos.


Foi em um monitor de tubo branco-que-com-o-tempo-vira-amarelo que vi aquela mulher pela primeira vez. A imagem era esta:


Mulher em um palco, segurando um microfone, com cabelos longos escuros e figurino preto e dourado com franjas e aplicações brilhantes.
A fotografia que, por algum motivo que me escapa, ilustrava o artigo da Cher na Wikipédia em 28 de outubro de 2007.

Cher é, muito provavelmente, uma das mulheres mais fotografadas da história, mas aquela imagem em específico era, estatisticamente falando, uma foto de percentil 3: em quase qualquer outra ocasião em que uma câmera lhe fora apontada, ela saíra melhor.


Ainda assim, aquela imagem me intrigou.


Tratava-se de uma mulher inegavelmente... estranha. Esquisita, até. Como eu.


Parecia não ter idade nenhuma e todas as idades ao mesmo tempo.


Parecia um ser de outro planeta.


Parecia também uma tia legal, daquelas com quem você poderia passar horas conversando sobre qualquer assunto.


E parecia uma mãe. Não a minha mãe, especificamente, mas algo próximo do conceito de "mãe-natureza": uma espécie de entidade que sempre esteve ali e que sempre estará. Como o sol.


Sol. Céu. Ar. Cher. Todos eles mononímicos, todos eles monossílabos, todos eles... etéreos?


Arte em tons de verde mostra uma mulher de cabelos longos e escuros, usando uma coroa e vestido verde, em meio a uma floresta fantástica com folhagens densas, flores gigantes e luz difusa ao fundo.
Sol, céu, ar, Cher: etéreos? Arte retirada do encarte da coletânea caça-níqueis Gold, lançada pela Geffen Records – uma de uma longa lista de ex-gravadoras de Cher – em 2005, sem que ela própria necessariamente aprovasse ou soubesse. A associação pode parecer (e parece) forçada; aparentemente, entretanto, eu não fui o primeiro a fazê-la.

"Cher" me soava como um conceito enorme e complexo demais para ser compreendido em uma tarde de domingo.


Talvez precisasse de duas tardes. Ou de duas décadas.


Não deu pra resistir.


Em 2010, inventei e comecei a espalhar pela internet o apelido de "Deusa do Pop". O motivo: eu simplesmente não conseguia conviver com o fato de que Madonna era a "Rainha do Pop" e Cher – a "minha" Cher – não tinha título nenhum. "Goddess of Pop" foi parar nas palavras cruzadas do New York Times e nas páginas da Time, Billboard e Rolling Stone. Hoje, até a própria equipe dela usa.


Em 11 de março de 2010, fiz minha primeira edição assinada no artigo da Cher na Wikipédia em inglês. Em 11 de março de 2025 – quinze anos depois, no mesmo dia – ele se tornou artigo destacado após meses de revisão por pares.


Sim, eu (re)escrevi a Bíblia da Cher na internet por completo. Cada palavra ali é minha ou passou pelo meu crivo.


Nesse meio-tempo, criei canal, site e até plataforma de streaming sobre Cher: mais de 400 mil inscritos no YouTube, um fã-site (cherfanclub.com) que conquistou o topo do Google (desbancando o oficialíssimo – e hoje fora do ar – cher.com) e milhares de assinantes no CherFlix (não, você não leu errado).


Captura de tela da página inicial do CherFlix, com destaque para o filme Moonstruck: Cher aparece em frente a uma lua cheia, ao lado do título do filme e de um botão “Streaming Now”.
Captura de tela da página inicial do CherFlix em março de 2025: blame it on the moon.

Muita gente chamaria tudo isso de hiperfoco... Quase.


Cher é um dos meus interesses especiais.


Interesse especial é aquele assunto que atravessa décadas, que organiza a sua visão de mundo, que nunca perde o fascínio.


Já o famoso (e frequentemente descontextualizado) hiperfoco é um estado: horas de imersão total em que o tempo desaparece e o mundo em volta desliga.


É parente do "flow", mas sem o botão de sair.


O interesse é o mapa; o hiperfoco é pegar a estrada com o indicador de combustível quebrado.


No autismo, os dois costumam andar juntos. É por isso que um hobby autista raramente se restringe a uma atividade de lazer. A gente tende a transformar o hobby em obra.


Me descobri autista aos 31.


Hoje, como médico que investiga e diagnostica autismo em adultos, reconheço nos meus pacientes o que carrego na pele... Nesse caso, literalmente.


Homem sem camisa, de costas e olhando por cima do ombro, com uma tatuagem de Cher na parte superior do braço e usando bermuda listrada colorida.
Cher: do monitor de tubo para a minha pele.

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