A cor do papel: sobre protagonistas negras em telenovelas brasileiras
Atualizado: 21 de set.

Nota editorial: Este texto foi escrito em 2014 e preserva o recorte e o contexto daquele momento.
Taís Araújo estreou como protagonista de novelas da TV Globo interpretando uma vendedora de rua em Da Cor do Pecado (2004) – não entremos no mérito do título da trama, que isso é história pr'outro rant.
Da Cor do Pecado foi a primeira trama contemporânea da Globo a ser protagonizada por uma atriz negra.
Considerando todas as novelas produzidas pela emissora, contemporâneas ou não, o ranking muda, e Da Cor do Pecado passa a classificar-se como a (oitava? décima terceira? vigésima?)... segunda novela protagonizada por uma atriz negra na história da Globo.
A primeira atriz negra a protagonizar uma novela na Globo foi Ruth de Souza em A Cabana do Pai Tomás (1969), no papel de uma (artesã? Artista? Dona de casa?)... mulher escravizada.
Placar parcial:
vendedora de rua: 1;
mulher escravizada: 1.

A primeira protagonista negra de uma novela fora da Globo foi Iolanda Braga em A Cor da Sua Pele (1965), produzida pela TV Tupi. O sucesso da personagem fez da atriz a primeira mulher negra a estrelar uma campanha de cosméticos no Brasil, da marca Belinda. O produto era um creme clareador de pele.
Um creme clareador de pele. Anunciado pela mulher que protagonizou uma novela chamada A Cor da Sua Pele. Uma mulher negra.

Em A Cor da Sua Pele, Iolanda interpretou uma empregada doméstica. Em Da Cor do Pecado, Taís Araújo interpretou uma vendedora de rua. Quatro décadas de diferença. Nenhuma diferença.
Placar parcial:
vendedora de rua: 1;
mulher escravizada: 1;
empregada doméstica: 1.
Depois de Iolanda, levou exatamente 31 anos até que uma mulher negra estrelasse uma novela fora da Globo. Com apenas 17 anos de idade, a então estreante Taís Araújo (alguns vários nomes se repetirão até o fim desta divagação) recebeu a honraria de encarnar uma personalidade histórica em uma novela que levava o nome de sua personagem.
A novela era Xica da Silva, da TV Manchete. A protagonista Xica, como todos sabemos, era uma mulher escravizada.
Placar parcial:
mulhere(S!) escravizada(S!): 2;
vendedora de rua: 1;
empregada doméstica: 1.
Voltemos à Globo.
Em Viver a Vida (2009), Taís viveu sua segunda personagem principal na emissora e passou a integrar o seleto grupo de Helenas dos folhetins de Manoel Carlos.
A Helena de Taís era uma supermodelo internacional – uma personagem não subserviente, enfim.
A Helena de Taís não agradou. De todas as Helenas escritas por Maneco até então, a de Taís obteve a maior taxa de rejeição. Não, isso é eufemismo; a verdade é que nenhuma outra Helena sofreu rejeição até que chegasse a vez de Taís.
A Helena de Taís era, como a própria Taís é, uma mulher negra.
A primeira Helena negra de Maneco.
A primeira Helena rejeitada de Maneco.

A terceira protagonista de novelas de Taís viria três anos depois, em Cheias de Charme (2012), trama solar e um tanto fantasiosa.
Esse "um tanto" tem razão de ser: a fantasia não se estendia ao ponto de deixar de fomentar a correlação entre a cor da pele dos atores e a situação socioeconômica das personagens que lhes são reservadas nas novelas. Afinal, a protagonista de Taís em Cheias de Charme era uma – rufem os tambores! – empregada doméstica.
Dessa vez, não houve rejeição do público.
Placar parcial:
mulheres escravizadas: 2;
empregadas domésticas: 2;
vendedora de rua: 1;
modelo internacional: 1;
modelo internacional que não é rebaixada a personagem secundária no meio de uma novela em que iniciou como protagonista: 0.
Entre as protagonistas de 2004 e de 2009 de Taís, tivemos a segunda atriz negra a protagonizar uma novela contemporânea da Globo: Camila Pitanga em Cama de Gato (2009), no papel de uma – wait for it – empregada doméstica. Ela voltaria a protagonizar uma novela quatro anos depois, em Lado a Lado (2012), dessa vez interpretando uma... empregada doméstica.
Placar final (1951–2013):
empregadas domésticas: 4;
mulheres escravizadas: 2;
vendedora de rua: 1;
total de protagonistas de novela negras em 62 anos de teledramaturgia nacional, em qualquer emissora: 7.
Poderiam ser nove, não fosse o fato de que duas novelas de época tiveram suas protagonistas escravizadas reservadas – por algum motivo supostamente relevante à trama do tosco romance que as baseou – a atrizes brancas: as Isauras de Lucélia Santos (A Escrava Isaura, Globo, 1976) e de Bianca Rinaldi (remake homônimo da TV Record, 2004).
[Nota: por ter efetivamente deixado o posto de protagonista enquanto a novela ainda estava no ar, optei por excluir do pódio a modelo internacional de Maneco.]
Mas, para provar que estamos em 2014 e que esta história absurda está chegando ao fim, a Globo lançará, na próxima terça-feira (16), uma versão brasileira do icônico (para o bem ou para o mal) seriado norte-americano Sex and the City protagonizada por quatro mulheres negras.
O nome da adaptação?
Sexo e as Negas.
A despeito do que canta em uníssono o elenco da emissora nas vinhetas de todo fim de ano, a depender da Globo, o futuro não começou.

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